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A Chave
Machado
de Assis
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A Chave
CAPTULO PRIMEIRO
No sei se lhes diga simplesmente que era de madrugada, ou se comece
num tom mais potico: a Aurora, com seus rseos dedos... A maneira
simples  o que melhor me conviria a mim, ao leitor, aos banhistas que
esto agora na Praia do Flamengo  agora, isto , no dia 7 de outubro de
1861, que  quando tem princpio este caso que lhes vou contar. Convinhanos
isto; mas h l um certo velho, que me no leria, se eu me limitasse a
dizer que vinha nascendo a madrugada, um velho que... digamos quem era
o velho.
Imaginem os leitores um sujeito gordo, no muito gordo  calvo, de culos,
tranqilo, tardo, meditativo. Tem sessenta anos: nasceu com o sculo.
Traja asseaiamente um vesturio da manh; v-se que  abastado ou
exerce algum alto emprego na administrao. Sade de ferro. Disse j que
era calvo; equivale a dizer que no usava cabeleira. Incidente sem valor,
observar a leitora, que tem pressa. Ao que lhe replico que o incidente 
grave, muito grave, extraordinariamente grave. A cabeleira devia ser o
natural apndice da cabea do major Caldas, porque cabeleira traz ele no
esprito, que tambm  calvo.
Calvo  o esprito. O major Caldas cultivou as letras, desde 1821 at 1840
com um ardor verdadeiramente deplorvel. Era poeta; compunha versos
com presteza, retumbantes, cheios de adjetivos, cada qual mais calvo do
que ele tinha de ficar em 1861. A primeira poesia foi dedicada a no sei que
outro poeta, e continha em germe todas as odes e glosas que ele havia de
produzir. No compreendeu nunca o major Caldas que se pudesse fazer
outra cousa que no glosas e odes de toda a casta, pindricas ou
horacianas, e tambm idlios piscatricos, obras perfeitamente legtimas na
aurora literria do major. Nunca para ele houve poesia que pudesse
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competir com a de um Dinis ou Pimentel Maldonado; era a sua cabeleira do
esprito.
Ora,  certo que o major Caldas, se eu dissesse que era de madrugada, darme-
ia um muxoxo ou franziria a testa com desdm.  Madrugada! era de
madrugada! murmuraria ele. Isto diz a qualquer preta:  "nhanh, era de
madrugada..." Os jornais no dizem de outro modo; mas numa novela...
V pois! A aurora, com seus dedos cor-de-rosa, vinha rompendo as cortinas
do oriente, quando Marcelina levantou a cortina da barraca. A porta da
barraca olhava justamente para o oriente, de modo que no h
inverossimilhana em lhes dizer que essas duas auroras se contemplaram
por um minuto. Um poeta arcdico chegaria a insinuar que a aurora celeste
enrubesceu de despeito e raiva. Seria porm levar a poesia muito longe.
Deixemos a do cu e venhamos  da terra. L est ela,  porta da barraca
com as mos cruzadas no peito, como quem tem frio; traja a roupa usual
das banhistas, roupa que s d elegncia a quem j a tiver em subido grau.
 o nosso caso.
Assim,  meia-luz da manh nascente, no sei se poderamos v-la de
modo claro. No;  impossvel. Quem lhe examinaria agora aqueles olhos
midos, como as conchas da praia, aquela boca pequenina, que parece um
beijo perptuo? Vede, porm, o talhe, a curva amorosa das cadeiras, o
trecho de perna que aparece entre a barra da cala de flanela e o tornozelo;
digo o tornozelo e no o sapato porque Marcelina no cala sapatos de
banho. Costume ou vaidade? Pode ser costume; se for vaidade  explicvel
porque o sapato esconderia e mal os ps mais graciosos de todo o
Flamengo, um par de ps finos, esguios, ligeiros. A cabea tambm no
leva coifa; tem os cabelos atados em parte, em parte tranados  tudo
desleixadamente, mas de um desleixo voluntrio e casquilho.
Agora, que a luz est mais clara, podemos ver bem a expresso do rosto, 
uma expresso singular de pomba e gato, de mimo e desconfiana. H
olhares dela que atraem, outros que distanciam  uns que inundam a
gente, como um blsamo, outros que penetram como uma lmina.  desta
ltima maneira que ela olha para um grupo de duas moas, que esto 
porta de outra barraca, a falar com um sujeito.
 Lambisgias! murmura entre dentes.
 Que ? pergunta o pai de Marcelina, o major Caldas, sentado ao p da
barraca, numa cadeira que o moleque lhe leva todas as manhs.
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 Que  o qu? diz a moa.
 Tu falaste alguma cousa.
 Nada.
 Ests com frio?
 Algum.
 Pois olha, a manh est quente.
 Onde est o Jos?
O Jos apareceu logo; era o moleque que a acompanhava ao mar.
Aparecido o Jos, Marcelina caminhou para o mar, com um desgarro de
moa bonita e superior. Da outra barraca tinham j sado as duas moas,
que lhe mereceram to desdenhosa classificao; o rapaz que estava com
elas tambm entrara no mar. Outras cabeas e bustos surgiram da gua,
como um grupo de delfins. Da praia alguns olhos, puramente curiosos, se
estendiam aos banhistas ou cismavam puramente contemplando o petculo
das ondas que se dobravam e desdobravam  ou, como diria o major
Caldas  as convulses de Anfitrite.
O major ficou sentado a ver a filha, com o Jornal do Commercio aberto
sobre os joelhos; tinha j luz bastante para ler as notcias; mas no o fazia
nunca antes de voltar a filha do banho. Isto por duas razes. Era a primeira
a prpria afeio de pai; apesar da confiana na destreza da filha, receava
algum desastre. Era a segunda o gosto que lhe dava contemplar a graa e a
habilidade com que Marcelina mergulhava, bracejava ou simplesmente
boiava "como uma niade", acrescentava ele se falava disso a algum amigo.
Acresce que o mar naquela manh estava muito mais bravio que de
costume; a ressaca era forte; os buracos da praia mais fundos; o medo
afastava vrios banhistas habituais.
 No te demores muito, disse o major, quando a filha entrou; toma
cuidado.
Marcelina era destemida; galgou a linha em que se dava a arrebentao, e
surdiu fora muito naturalmente. O moleque, alis bom nadador, no
rematou a faanha com igual placidez; mas galgou tambm e foi surgir ao
lado da sinh-moa.
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 Hoje o bicho no est bom, ponderou um banhista ao lado de
Marcelina, um homem maduro, de suas, ar aposentado.
 Parece que no, disse a moa; mas para mim  o mesmo.
 O major continua a no gostar dgua salgada? perguntou uma senhora.
 Diz que  militar de terra e no do mar, replicou Marcelina, mas eucreio
que papai o que quer  ler o Jornal  vontade.
 Podia vir l-lo aqui, insinuou um rapaz de bigodes, dando uma grande
risada de aplauso a si mesmo.
Marcelina nem olhou para ele; mergulhou diante de uma onda, surdiu fora,
com as mos sacudiu os cabelos. O sol, que j ento aparecera, alumiava-a
nessa ocasio, ao passo que a onda, seguindo para a praia, deixava-lhe
todo o busto fora de gua. Foi assim que a viu, pela primeira vez, com os
cabelos midos, e a flanela grudada ao busto  ao mais correto e virginal
busto daquelas praias , foi assim que pela primeira vez a viu o Bastinhos
 o Lus Bastinhos , que acabava de entrar no mar, para tomar o primeiro
banho no Flamengo.
CAPTULO II
A ocasio  a menos prpria para apresentar-lhes o sr. Lus Bastinhos; a
ocasio e o lugar. O vesturio ento  improprissimo. Ao v-lo agora, a
meio-busto, nem se pode dizer que tenha vesturio de nenhuma espcie.
Emerge-lhe a parte superior do corpo, boa musculatura, pele alva, mal
coberta de alguma penugem. A cabea  que no precisa dos arrebiques da
civilizao para dizer-se bonita. No h cabeleireiro, nem leo, nem pente,
nem ferro que no-la ponham mais graciosa. Ao contrrio, a presso
fisionmica de Lus Bastinhos acomoda-se melhor a esse desalinho agreste
e martimo. Talvez perca, quando se pentear. Quanto ao bigode, fino e
curto, os pingos dgua que ora lhe escorrem no chegam a diminu-lo; no
chegam sequer a ver-se. O bigode persiste como dantes.
No o viu Marcelina, ou no reparou nele. O Lus Bastinhos  que a viu, e
mal pde disfarar a admirao. O major Caldas, se os observasse, era
capaz de cas-los, s para ter o gosto de dizer que unia uma niade a um
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trito. Nesse momento a niade repara que o trito tem os olhos fitos nela,
e mergulha, depois mergulha outra vez, nada e bia. Mas o trito 
teimoso, e no lhe tira os olhos de cima.
"Que importuno!" diz ela consigo.
 Olhem uma onda grande, brada um dos conhecidos de Marcelina.
Todos se puseram em guarda, a onda enrolou alguns, mas passou sem
maior dano. Outra veio e foi recebida com um alarido alegre; enfim veio
uma mais forte, e assustou algumas senhoras. Marcelina riu-se delas.
 Nada, dizia uma; salvemos o plo; o mar est ficando zangado.
 Medrosa! acudiu Marcelina.
 Pois sim...
 Querem ver? continuou a filha do major. Vou mandar embora o moleque.
 No faa isso, D. Marcelina, acudiu o banhista de ar aposentado.
 No fao outra cousa. Jos, vai-te embora.
 Mas, nhanh...
 Vai-te embora!
O Jos ainda esteve alguns segundos, sem saber o que fizesse; mas, parece
que entre desagradar ao pai ou  filha, achou mais arriscado desagradar 
filha, e caminhou para terra. Os outros banhistas tentaram persuadir 
moa que devia vir tambm, mas era tempo baldado. Marcelina tinha a
obstinao de um enfant gt. Lembraram alguns que ela nadava como um
peixe, e resistira muita vez ao mar.
 Mas o mar do Flamengo  o diabo, ponderou uma senhora. Os banhistas
pouco a pouco foram deixando o mar. Do lado de terra, o major Caldas, de
p, ouvia impaciente a explicao do moleque, sem saber se o devolveria 
gua ou se cumpriria a vontade da filha; limitou-se a soltar palavras de
enfado.
 Santa Maria! exclamou de repente o Jos.
 Que foi? disse o major.
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O Jos no lhe respondeu; atirou-se  gua. O major olhou e no viu a
filha. Efetivamente, a moa, vendo que no mar s ficava o desconhecido,
nadou para terra, mas as ondas tinham-se sucedido com freqncia e
impetuosidade. No lugar da arrebentao foi envolvida por uma; nesse
momento  que o moleque a viu.
 Minha filha! bradou o major.
E corria desatinado pela areia, enquanto o moleque conscienciosamente
buscava penetrar no mar. Mas era j empresa escabrosa; as ondas estavam
altas, fortes e a arrebentao terrvel. Outros banhistas acudiram tambm a
salvar a filha do major; mas a dificuldade era s uma para todos. Caldas,
ora implorava, ora ordenava ao moleque que lhe restitusse a filha. Enfim,
Jos conseguiu entrar no mar. Mas j ento lutava ali, junto ao funesto
lugar, o desconhecido banhista que tanto aborrecera a filha do major. Este
estremeceu de alegria, de esperana, quando viu que algum forcejava por
arrancar a moa da morte. Na verdade, o vulto de Marcelina apareceu nos
braos do Lus Bastinhos; mas uma onda veio e os enrolou a ambos. Nova
luta, novo esforo e desta vez definitivo triunfo. Lus Bastinhos chegou 
praia arrastando consigo a moa.
 Morta! exclamou o pai correndo a v-la.
Examinaram-na.
 No, desmaiada, apenas.
Com efeito, Marcelina perdera os sentidos, mas no morrera. Deram-lhe os
socorros mdicos; ela voltou a si. O pai, singelamente alegre, apertou Lus
Bastinhos ao corao.
 Devo-lhe tudo! disse ele.
 A sua felicidade me paga de sobra, tornou o moo.
O major fitou-o alguns instantes; impressionara-o a resposta. Depois
apertou-lhe a mo e ofereceu-lhe a casa. Lus Bastinhos retirou-se antes
que Marcelina pudesse v-lo.
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CAPTULO III
Na verdade, se a leitora gosta de lances romanescos, a fica um, com todo o
valor das antigas novelas, e pode ser tambm que dos dramalhes antigos.
Nada falta: o mar, o perigo, uma dama que se afoga, um desconhecido que
a salva, um pai que passa da extrema aflio ao mais doce prazer da vida;
eis a com que marchar cerradamente a cinco atos maudos e sangrentos,
rematando tudo com a morte ou a loucura da herona.
No temos c nem uma cousa nem outra. A nossa Marcelina no morreu
nem morre; douda pode ser que j fosse, mas de uma doidice branda, a
doidice das moas em flor. Ao menos pareceu que tinha alguma cousa
disso, quando naquele mesmo dia soube que fora salva pelo desconhecido.
 Impossvel! exclamou.
 Por qu?
 Foi ele deveras?
 Pois ento! Salvou-te com perigo da vida prpria; houve um momento,
em que eu cuidei que ambos vocs morriam enrolados na onda.
  a cousa mais natural do mundo, interveio a me; e no sei de que te
espantas...
Marcelina no podia, na verdade, explicar a causa do espanto; ela mesma
no a sabia. Custava-lhe a crer que Lus Bastinhos a tivesse salvo, e isso s
porque "embirrara com ele". Ao mesmo tempo, pesava-lhe o obsquio. No
quisera ter morrido; mas era melhor que outro a houvesse arrancado ao
mar, no aquele homem, que afinal era um grande metedio. Marcelina
esteve inclinada a crer que Lus Bastinhos encomendara o desastre para ter
ocasio de a servir.
Dous dias depois, Marcelina voltou ao mar, j pacificado dos seus furores de
encomenda. Ao olhar para ele, teve uns mpetos de Xerxes; f-lo-ia
castigar, se dispusesse de um bom e grande vergalho. No tendo o
vergalho, preferiu flagel-lo com os seus prprios braos, e nadou nesse dia
mais tempo e mais fora do que era costume, no obstante as
recomendaes do major. Levava naquilo um pouco, ou antes, muito amorprprio:
o desastre envergonhara-a.
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O Lus Bastinhos, que j l estava no mar, travou conversao com a filha
do major. Era a segunda vez que se viam, e a primeira que se falavam.
 Soube que foi o senhor quem me ajudou... a levantar anteontem, disse
Marcelina.
O Lus Bastinhos sorriu mentalmente; e ia responder por uma simples
afirmativa, quando Marcelina continuou:
 Ajudou, no sei; eu creio que cheguei a perder os sentidos, e o senhor...
sim... o senhor foi quem me salvou. Permite-me que lhe agradea? concluiu
ela, estendendo a mo.
Lus Bastinhos estendeu a sua; e ali, entre duas ondas, tocaram-se os
dedos do trito e da niade.
 Hoje o mar est mais manso, disse ele.
 Est.
 A senhora nada bem.
 Parece-lhe?
 Perfeitamente.
 Menos mal.
E como para mostrar a sua arte, Marcelina entrou a nadar para fora,
deixando Lus Bastinhos. Este, porm, ou por mostrar que tambm sabia a
arte e que era destemido  ou por no privar a moa de pronto socorro,
caso houvesse necessidade , ou enfim (e este motivo pode ter sido o
principal, se no nico)  para v-la sempre de mais perto , l foi na
mesma esteira; dentro de pouco era uma espcie de aposta entre os dous.
 Marcelina, disse-lhe o pai, quando ela voltou a terra, voc hoje foi mais
longe do que nunca. No quero isso, ouviu?
Marcelina levantou os ombros, mas obedeceu ao pai, cujo tom nessa
ocasio era desusadamente rspido. No dia seguinte, no foi to longe a
nadar; a conversar, porm, foi muito mais longe do que na vspera. Ela
confessou ao Lus Bastinhos, ambos com a gua at o pescoo, confessou
que gostava muito de caf com leite, que tinha vinte e um1 anos, que
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possua reminiscncias do Tamberlick, e que o banho do mar seria
excelente, se no a obrigassem a acordar cedo.
 Deita-se tarde, no ? perguntou o Lus Bastinhos.
 Perto de meia-noite.
 Oh! dorme pouco!
 Muito pouco.
 De dia dorme?
 s vezes.
Lus Bastinhos confessou, pela sua parte, que se deitava cedo, muito cedo,
desde que estava a banhos de mar.
 Mas quando for ao teatro?
 Nunca vou ao teatro.
 Pois eu gosto muito.
 Tambm eu; mas enquanto estiver a banhos...
Foi neste ponto que entraram as reminiscncias do Tamberlick, que
Marcelina ouviu, quando criana; e da ao Joo Caetano, e do Joo Caetano
a no sei que outras reminiscncias, que a um e a outro fez esquecer a
higiene e a situao.
CAPTULO IV
Saiamos do mar que  tempo. A leitora pode desconfiar que o intento do
autor  fazer um conto martimo, a ponto de casar os dous heris nos
prprios "paos de Anfitrite", como diria o major Caldas. No; saiamos do
mar. J tens muita gua, boa Marcelina. Too much of water hast thou, poor
Ophelia! A diferena  que a pobre Oflia l ficou, ao passo que tu sais s e
salva, com a roupa de banho pegada ao corpo, um corpo grego, por Deus! e
entras na barraca, e se alguma cousa ouves, no so as lgrimas dos teus,
so os resmungos do major. Saiamos do mar.
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Um ms depois do ltimo banho a que o leitor assistiu, j o Lus Bastinhos
freqentava a casa do major Caldas. O major afeioara-se-lhe deveras
depois que ele lhe salvara a filha. Indagou quem era; soube que estava
empregado numa repartio de Marinha, que seu pai, j agora morto, fora
capito-de-fragata e figurara na guerra contra Rosas. Soube mais que era
moo bem reputado e decente. Tudo isto realou a ao generosa e
corajosa de Lus Bastinhos, e a intimidade comeou, sem oposio da parte
de Marcelina, que antes contribuiu para ela, com as suas melhores
maneiras.
Um ms era de sobra para arraigar no corao de Lus Bastinhos a planta
do amor que havia germinado entre duas vagas do Flamengo. A planta
cresceu, copou, bracejou ramos a um e outro lado, tomou o corao todo do
rapaz, que no se lembrava jamais de haver gostado tanto de uma moa.
Era o que ele dizia a um amigo de infncia, seu atual confidente.
 E ela? disse-lhe o amigo.
 Ela... no sei.
 No sabes?
 No; creio que no gosta de mim, isto , no digo que se aborrea
comigo; trata-me muito bem, ri muito, mas no gosta... entendes?
 No te d corda em suma, concluiu o Pimentel, que assim se chamava o
amigo confidente. J lhe disseste alguma cousa?
 No.
 Por que no lhe falas?
 Tenho receio... Ela pode zangar-se e fico obrigado a no voltar l ou a
freqentar menos, e isso para mim seria o diabo.
O Pimentel era uma espcie de filsofo prtico, incapaz de suspirar dous
minutos pela mais bela mulher do mundo, e menos ainda de compreender
uma paixo como a do Lus Bastinhos. Sorriu, estendeu-lhe a mo em
despedida, mas o Lus Bastinhos no consentiu na separao. Puxou-o, deulhe
o brao, levou-o a um caf.
 Mas que diabo queres tu que te faa? perguntou o Pimentel sentando-se
 mesa com ele.
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 Que me aconselhes.
 O qu?
 No sei o qu, mas dize-me alguma cousa, replicou o namorado. Talvez
convenha falar ao pai; que te parece?
 Sem saber se ela gosta de ti?
 Na verdade era imprudncia, concordou o outro, coando o queixo com a
ponta do dedo ndice; mas talvez goste...
 Pois ento...
 Porque, eu te digo, ela no me trata mal; ao contrrio, s vezes tem uns
modos, umas cousas... mas no sei... O major esse gosta de mim.
 Ah!
 Gosta.
 Pois a tens, casa-te com o major.
 Falemos srio.
 Srio? repetiu o Pimentel debruando-se sobre a mesa e encarando o
outro. Aqui vai o mais srio que h no mundo; tu s um... digo?
 Dize.
 Tu s um bolas.
Repetiam-se essas cenas regularmente, uma ou duas vezes, por semana.
No fim delas o Lus Bastinhos prometia duas cousas a si mesmo: no
dizermais nada ao Pimentel e ir fazer imediatamente a sua confisso a
Marcelina; poucos dias depois ia confessar ao Pimentel que ainda no
dissera nada a Marcelina. E o Pimentel abanava a cabea e repetia o
estribilho:
 Tu s um bolas.
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CAPTULO V
Um dia assentou Lus Bastinhos que era vergonha dilatar por mais tempo a
declarao de seus afetos; urgia clarear a situao. Ou era amado ou no;
no primeiro caso, o silncio era tolice; no segundo a tolice era a
assiduidade. Tal foi a reflexo do namorado; tal foi a sua resoluo.
A ocasio era na verdade propcia. O pai ia passar a noite fora; a moa
ficara com uma tia surda e sonolenta. Era o sol de Austerlitz; o nosso
Bonaparte preparou a sua melhor ttica. A fortuna deu-lhe at um grande
auxiliar na prpria moa, que estava triste; a tristeza podia dispor o corao
a sentimentos benvolos, principalmente quando outro corao lhe dissesse
que no duvidava beber na mesma taa da melancolia. Esta foi a primeira
reflexo de Lus Bastinhos; a segunda foi diferente.
 Por que estar ela triste? perguntou ele a si mesmo.
E eis o dente do cime a trincar-lhe o corao, e o sangue a esfriar-lhe nas
veias, e uma nuvem a cobrir-lhe os olhos. No era para menos o caso.
Ningum adivinharia nessa moa quieta e sombria, sentada a um canto do
sof, a ler as pginas de um romance, ningum adivinharia nela a borboleta
gil e volvel de todos os dias. Alguma cousa devia ser; talvez a mordesse
algum besouro. E esse besouro no era decerto o Lus Bastinhos; foi o que
este pensou e foi o que o entristeceu.
Marcelina ergueu os ombros.
 Alguma cousa que a incomoda, continuou ele.
Um silncio.
 No?
 Talvez.
 Pois bem, disse Lus Bastinhos com calor e animado por aquela meia
confidncia; pois bem, diga-me tudo, eu saberei ouvi-la e terei palavras de
consolao para as suas dores.
Marcelina olhou um pouco espantada para ele, mas a tristeza dominou outra
vez e deixou-se estar calada alguns instantes: finalmente ps-lhe a mo no
brao, e disse que lhe agradecia muito o interesse que mostrava, mas que o
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motivo de tristeza era-o s para ela e no valia a pena cont-lo. Como Lus
Bastinhos teimasse para saber o que era, contou a moa que lhe morrera,
nessa manh, o mico.
Lus Bastinhos respirou  larga. Um mico! um simples mico! Era pueril o
objeto, mas para quem o esperava terrvel, antes assim. Ele entregou-se
depois a toda a sorte de consideraes prprias do caso, disse-lhe que no
valia o bicho a pureza dos belos olhos da moa; e da a escorregar uma
insinuao de amor era um quase nada. Ia a faz-lo: chegou o major.
Oito dias depois houve em casa do major um sarau  "uma brincadeira"
como disse o prprio major. Lus Bastinhos foi; estava porm arrufado com
a moa: deixou-se ficar a um canto; no se falaram durante a noite inteira.
 Marcelina, disse-lhe no dia seguinte o pai; acho que tratas s vezes mal o
Bastinhos. Um homem que te salvou da morte.
 Que morte?
 Da morte na Praia do Flamengo.
 Mas, papai, se a gente fosse a morrer de amores por todas as pessoas
que nos salvam da morte...
 Mas quem te fala nisso? digo que o tratas mal s vezes...
 s vezes,  possvel.
 Mas por qu? ele parece-me um bom rapaz.
Nada mais lhe respondendo a filha, entrou o major a bater com a ponta do
p no cho, um pouco enfadado. Um pouco? talvez muito. Marcelina
destrua-lhe as esperanas, reduzia-lhe a nada o projeto que ele acalentava
desde algum tempo,  que era casar os dous;  cas-los ou uni-los pelos
"doces laos do himeneu", que todas foram as suas prprias expresses
mentais. E vai a moa e destri-lho. O major sentia-se velho, podia morrer,
e quisera deixar a filha casada e bem casada. Onde achar melhor marido
que o Lus Bastinhos?
 Uma prola, dizia ele a si mesmo.
E enquanto ele ia forjando e desforjando esses projetos, Marcelina
suspirava consigo mesma, e sem saber por que; mas suspirava. Tambm
esta pensava na convenincia de casar e casar bem; mas nenhum homem
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lhe abrira deveras o corao. Quem sabe se a fechadura no servia a
nenhuma chave? Quem teria a verdadeira chave do corao de Marcelina?
Ela chegou a supor que fosse um bacharel da vizinhana, mas esse casou
dentro de algum tempo; depois desconfiara que a chave estivesse em poder
de um oficial de Marinha. Erro: o oficial no trazia chave consigo. Assim
andou de iluso em iluso, e chegou  mesma tristeza do pai. Era fcil
acabar com ela: era casar com o Bastinhos. Mas se o Bastinhos, o
circunspecto, o melanclico, o taciturno Bastinhos no tinha a chave!
Equivalia a receb-lo  porta sem lhe dar entrada no corao.
CAPTULO VI
Cerca de ms e meio depois fazia anos o major, que, animado pelo sarau
precedente, quis comemorar com outro aquele dia. "Outra brincadeira, mas
desta vez rija", foram os prprios termos em que ele anunciou o caso ao
Lus Bastinhos, alguns dias antes.
Pode-se dizer e acreditar que a filha do major no teve outro pensamento
desde que o pai lho comunicou tambm. Comeou por encomendar um rico
vestido, elegeu costureira, adotou corte, coligiu adornos, presidiu a toda
essa grande obra domstica. Jias, flores, fitas, leques, rendas, tudo lhe
passou pelas mos, e pela memria e pelos sonhos. Sim, a primeira
quadrilha foi danada em sonhos, com um belo cavalheiro hngaro, vestido
 moda nacional, cpia de uma gravura da Ilustrao Francesa, que ela vira
de manh. Acordada, lastimou sinceramente que no fosse possvel ao pai
encomendar, de envolta com os perus da ceia, um ou dous cavalheiros
hngaros  entre outros motivos porque eram valsadores interminveis. E
depois to bonitos!
 Sabem que eu pretendo danar no dia 20? disse o major uma noite, em
casa.
 Voc? retorquiu-lhe um amigo velho.
 Eu.
 Por que no? assentiu timidamente o Lus Bastinhos.
 Justamente, continuou o major voltando-se para o salvador da filha. E o
senhor h de ser o meu vis--vis...
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 Eu?
 No dana?
 Um pouco, retorquiu modestamente o moo.
 Pois h de ser o meu vis--vis.
Lus Bastinhos curvou-se como quem obedece a uma opresso; com a
flexibilidade passiva do fatalismo. Se era necessrio danar, ele o faria,
porque danava como poucos, e obedecer ao velho era uma maneira de
amar a moa. Ai dele! Marcelina olhou-o com tamanho desprezo, que se ele
lhe apanha o olhar, no  impossvel que de uma vez para sempre ali
deixasse de pr os ps. Mas no o viu; continuou a arred-los dali bem
poucas vezes.
Os convites foram profusamente espalhados. O major Caldas fez o
inventrio de todas as suas relaes, antigas e modernas, e no quis que
nenhum camaro lhe escapasse pelas malhas: lanou uma rede fina e
instante. Se ele no pensava em outra cousa o velho major! Era feliz;
sentia-se poupado da adversidade, quando muitos outros companheiros vira
cair, uns mortos, outros extenuados somente. A comemorao de seu
aniversrio tinha, portanto, uma significao mui alta e especial; e foi isso
mesmo o que ele disse  filha e aos demais parentes.
O Pimentel, que tambm fora convidado, sugeriu a Lus Bastinhos a idia de
dar um presente de anos ao major.
 J pensei nisso, retorquiu o amigo; mas no sei o que lhe d.
 Eu te digo.
 Dize.
 D-lhe um genro.
 Um genro?
 Sim, um noivo  filha; declara o teu amor e pede-a. Vers que, de todas
as ddivas desse dia, essa ser a melhor.
Lus Bastinhos bateu palmas ao conselho do Pimentel.
  isso mesmo, disse ele; eu andava com a idia em alguma jia, mas...
18
 Mas a melhor jia s tu mesmo, concluiu o Pimentel.
 No digo tanto.
 Mas pensas.
 Pimentel!
 E eu no penso outra cousa. Olha, se eu tivesse intimidade na casa, h
muito tempo que estarias amarrado  pequena. Pode ser que ela no goste
de ti; mas tambm  difcil a uma moa alegre e travessa gostar de um
casmurro, como tu  que te sentas, defronte dela, com um ar solene e
dramtico, a dizer em todos os teus gestos: minha senhora, fui eu que a
salvei da morte; deve rigorosamente entregar-me a sua vida... Ela pensa
decerto que ests fazendo um calembour de mau gosto e fecha-te a porta...
Lus Bastinhos esteve calado alguns instantes.
 Perdo-te tudo, a troco do conselho que me deste; vou oferecer um
genro ao major.
Dessa vez, como de todas as outras, a promessa era maior do que a
realidade; ele l foi, l tornou, nada fez. Iniciou duas ou trs vezes uma
declarao; chegou a entornar um ou dous olhares de amor, que no
pareceram de todo feios  pequena; e, porque ela sorriu, ele desconfiou e
desesperou. Qual! pensava consigo o rapaz; ela ama a outro com certeza.
Veio enfim o dia, o grande dia. O major deu um pequeno jantar, em que
figurou Lus Bastinhos; de noite reuniu uma parte dos convidados, porque
nem todos l puderam ir, e fizeram bem; a casa no dava para tanto. Ainda
assim era muita gente reunida, muita e brilhante, e alegre, como alegre
parecia e deveras estava o major. No se disse nem se dir dos brindes do
major,  mesa do jantar; no podem inserir-se aqui todas as recordaes
clssicas do velho poeta de outros anos; seria no acabar mais. A nica
cousa que verdadeiramente se pode dizer  que o major declarou, 
sobremesa, ser esse o dia mais venturoso de todos os seus longos anos,
entre outros motivos, porque tinha gosto de ver ao p de si o jovem
salvador da filha.
 Que idia! murmurou a filha; e deu um imperceptvel muxoxo. Lus
Bastinhos aproveitou o ensejo. "Magnfico, disse ele consigo; depois do caf,
peo-lhe duas palavras em particular, e logo depois a filha."
19
Assim fez; tomado o caf, pediu ao major uns cinco minutos de ateno.
Caldas, um pouco vermelho de comoo e de champagne, declarou-lhe que
at lhe daria cinco mil minutos, se tantos fossem precisos.
Lus Bastinhos sorriu lisonjeado a essa deslocada insinuao; e, entrando no
gabinete particular do major, foi sem mais prembulo ao fim da entrevista;
pediu-lhe a filha em casamento. O major quis resguardar um pouco a
dignidade paterna; mas era impossvel. Sua alegria foi uma exploso.
 Minha filha! bradou ele; mas... minha filha... ora essa... pois no!...
Minha filha!
E abria os braos e apertava com eles o jovem candidato, que, um pouco
admirado do prprio atrevimento, chegou a perder o uso da voz. Mas a voz
era, alis, intil, ao menos durante o primeiro quarto de hora, em que s
falou o ambiciado sogro, com uma volubilidade sem limites. Cansou enfim,
mas de um modo cruel.
 Velhacos! disse ele; com que ento... amam-se s escondidas...
 Eu?
 Pois quem?
 Peo-lhe perdo, disse Lus Bastinhos; mas no sei... no tenho certeza...
 Qu! no se correspondem?...
 No me tenho atrevido...
O major abanou a cabea com certo ar de irritao e lstima; pegou-lhe das
mos e fitou-o durante alguns segundos.
 Tu s afinal de contas um pandorga, sim, um pandorga  disse ele,
largando-lhe as mos.
Mas o gosto de os ver casados era tal, e tal a alegria daquele dia de anos,
que o major sentiu a lstima converter-se em entusiasmo, a irritao em
gosto, e tudo acabou em boas promessas.
 Pois digo-te, que te hs de casar, concluiu ele; Marcelina  um anjo, tu
outro, eu outro; tudo indica que nos devemos ligar por laos mais doces do
que as simples relaes da vida. Juro-te que sers o pai de meus netos...
20
Jurava mal o major, porque da a meia hora, quando ele chamou a filha ao
gabinete, e lhe comunicou o pedido, recebeu desta a mais formal recusa; e
por que insistisse em querer conced-la ao rapaz, disse-lhe a moa que
despediria o pretendente em plena sala, se lhe falassem mais em
semelhante absurdo. Caldas que conhecia a filha no disse mais nada.
Quando o pretendente lhe perguntou, da a pouco, se devia considerar-se
feliz, ele usou um expediente assaz enigmtico: piscou-lhe o olho. Lus
Bastinhos ficou radiante; ergueu-se s nuvens nas asas da felicidade.
Durou pouco a felicidade; Marcelina no correspondia s promessas do
major. Trs ou quatro vezes chegara-se a ela Lus Bastinhos, com uma frase
piegas na ponta da lngua, e vira-se obrigado a engoli-la outra vez, porque
a recepo de Marcelina no animava mais. Irritado, foi sentar-se ao canto
de uma janela, com os olhos na lua, que estava esplndida  uma
verdadeira nesga de romantismo. Ali fez mil projetos trgicos, o suicdio, o
assassinato, o incndio, a revoluo, a conflagrao dos elementos; ali
jurou que se vingaria de um modo exemplar. Como ento soprasse uma
brisa fresca, e ele a recebesse em primeira mo,  janela, acalmaram-selhe
as idias fnebres e sangneas, e apenas lhe ficou um desejo de
vingana de sala. Qual? No sabia qual fosse; mas trouxe-lha enfim uma
sobrinha do major.
 No dana? perguntou ela a Lus Bastinhos.
 Eu?
 O senhor.
 Pois no, minha senhora.
Levantou-se e deu-lhe o brao.
 De maneira que, disse ela, j agora so as moas que tiram os homens
para danar?
 Oh! no! protestou ele. As moas apenas ordenam aos homens o que
devem fazer; e o homem que est no seu papel obedece sem discrepar.
 Mesmo sem vontade? perguntou a prima de Marcelina.
 Quem  que neste mundo pode no ter vontade de obedecer a uma
dama? disse Lus Bastinhos com o seu ar mais piegas.
21
Estava em pleno madrigal; iriam longe, porque a moa era das que
saboreiam esse gnero de palestra. Entretanto, tinham dado o brao, e
passeavam ao longo da sala,  espera da valsa, que se ia tocar. Deu sinal a
valsa, os pares saram, e comeou o turbilho.
No tardou muito que a sobrinha do major compreendesse que estava
abraada a um valsista emrito, a um verdadeiro modelo de valsistas. Que
delicadeza! que segurana! que acerto de passos! Ela, que tambm valsava
com muita regularidade e graa, entregou-se toda ao parceiro. E ei-los
unidos, a voltearem rapidamente, leves como duas plumas, sem perder um
compasso, sem discrepar uma linha. Pouco a pouco, esvaziando-se a arena,
iam sendo os dous objeto exclusivo da ateno de todos. No tardou que
ficassem ss; e foi ento que o sucesso se formou decisivo e lisonjeiro. Eles
giravam e sentiam que eram o alvo da admirao geral; e ao senti-lo,
criavam foras novas, e no cediam o campo a nenhum outro. Pararam com
a msica
 Quer tomar alguma cousa? perguntou Lus Bastinhos com a mais
adocicada de suas entonaes.
A moa aceitou um pouco de gua; e enquanto andavam elogiavam um ao
outro, com o maior calor do mundo. Nenhum desses elogios, porm, chegou
ao do major, quando da a pouco encontrou Lus Bastinhos.
 Pois voc estava com isso guardado! disse ele.
 Isso qu?
 Isso... esse talento que Deus concedeu a poucos... a bem raros. Sim,
senhor; pode crer que  o rei da minha festa.
E apertou-lhe muito as mos, piscando o olho. Lus Bastinhos tinha j
perdido toda a f naquele jeito peculiar do major; recebeu-o com frieza. O
sucesso entretanto fora grande; ele o sentiu nos olhares sorrateiros dos
outros rapazes, nos gestos de desdm que eles faziam; foi a consagrao
ltima.
 Com que ento, s minha prima  que mereceu uma valsa!
Lus Bastinhos estremeceu, ao ouvir esta palavra; voltou-se; deu com os
olhos em Marcelina. A moa repetiu o dito, batendo-lhe com o leque no
brao. Ele murmurou algumas palavras, que a histria no conservou, alis
deviam ser notveis, porque ele ficou vermelho como uma pitanga. Essa cor
22
ainda se tornou mais viva, quando a moa, enfiando-lhe o brao, disse
resolutamente:
 Vamos a esta valsa...
Tremia o rapaz de comoo; pareceu-lhe ver nos olhos da moa todas as
promessas da bem-aventurana; entrou a compreender os piscados do
major.
 Ento? disse Marcelina.
 Vamos.
 Ou est cansado?
 Eu? que idia. No, no, no estou cansado.
A outra valsa fora um primor; esta foi classificada entre os milagres. Os
amadores confessaram francamente que nunca tinham visto um valsador
como Lus Bastinhos. Era o impossvel realizado; seria a pura arte dos
arcanjos, se os arcanjos valsassem. Os mais invejosos tiveram de ceder
alguma cousa  opinio da sala. O major chegou s raias do delrio.
 Que me dizem a este rapaz? bradou ele a uma roda de senhoras. Ele faz
tudo: nada como um peixe e valsa como um pio. Salvou-me a filha para
valsar com ela.
Marcelina no ouviu estas palavras do pai, ou perdoou-lhas. Estava toda
entregue  admirao. Lus Bastinhos era at ali o melhor valsista que
encontrara. Ela tinha vaidade e reputao de valsar bem; e achar um
parceiro de tal fora era a maior fortuna que podia acontecer a uma
valsista. Disse-lho ela mesma, no sei se com a boca, se com os olhos, e
ele epetiu-lhe a mesma idia, e foram ratificar da a pouco as suas
impresses numa segunda valsa. Foi outro e maior sucesso.
Parece que Marcelina valsou ainda uma vez com Lus Bastinhos, mas em
sonhos, uma valsa interminvel, numa plancie, ao som de uma orquestra
de diabos azuis e invisveis. Foi assim que ela referiu o sonho, no dia
seguinte, ao pai.
 J sei, disse este; esses diabos azuis e invisveis deviam ser dous.
 Dous?
23
 Um padre e um sacristo...
 Ora, papai!
E foi um protesto to gracioso, que o Lus Bastinhos, se o ouvisse e visse,
mui provavelmente pediria repetio. Mas nem viu nem soube dele. De
noite, indo l, recebeu novos louvores, falaram do baile da vspera. O
major confessou que era o melhor baile do ano; e dizendo-lhe a mesma
cousa o Lus Bastinhos, declarou o major que o salvador da filha reunia o
bom gosto ao talento coreogrfico.
 Mas por que no d outra brincadeira, um pouco mais familiar? disse o
Lus Bastinhos.
O major piscou o olho e adotou a idia. Marcelina exigiu de Lus Bastinhos
que danasse com ela a primeira valsa.
 Todas, disse ele.
 Todas?
 Juro-lhe que todas.
Marcelina abaixou os olhos e lembrou-se dos diabos azuis e invisveis. eio a
noite da "brincadeira", e Lus Bastinhos cumpriu a promessa; valsaram
ambos todas as valsas. Era quase um escndalo. A convico geral  que o
casamento estava prximo.
Alguns dias depois, o major deu com os dous numa sala, ao p de uma
mesa, a folhearem um livro  um livro ou as mos, porque as mos de um
e de outro estavam sobre o livro, juntas, e apertadas. Parece que tambm
folheavam os olhos, com tanta ateno que no viram o major. O major
quis sair, mas preferiu precipitar a situao.
 Ento que  isso? Esto valsando sem msica?
Estremeceram os dous e coraram muito, mas o major piscou o olho, e saiu.
Lus Bastinhos aproveitou a circunstncia para dizer  moa que o
casamento era a verdadeira valsa social; idia que ela aprovou e comunicou
ao pai.
 Sim, disse este, a melhor Terpscore  Himeneu.
24
Celebrou-se o casamento da a dous meses. O Pimentel, que serviu de
padrinho ao noivo, disse-lhe na igreja, que em certos casos era melhor
valsar que nadar, e que a verdadeira chave do corao de Marcelina no era
a gratido mas a coreografia. Lus Bastinhos abanou a cabea sorrindo; o
major, supondo que eles o elogiavam em voz baixa, piscou o olho.
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25
Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e
faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de
1908. Filho de mulato, brasileiro, e de branca,
portuguesa; era gago, epilptico, pobre,  por
causa disto no pde estudar em escolas e tornouse
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense", foi
aprendiz de tipgrafo na Imprensa Nacional, onde
conheceu seu protetor, Manuel Antonio de Almeida;
foi revisor de provas na Editora Paula Brito e no
"Correio Mercantil" e colaborador em vrios jornais
e revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica, muitos
dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana, Job, M.A.,
Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua vida
literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo soneto
de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
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Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase Ministro", "Os
Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de Casa
Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra 
de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em toda sua
obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e muito de
filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance "Quincas
Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante para a
compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos captulos: ora
curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear, isto , muitas vezes
um captulo no tem um final de ao, que ir continuar no no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta tcnica procura prender a ateno
do leitor at o fim do livro, o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua obra
vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios, constituindo-se
no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um escritor nacional.
Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de sua obra, a parte de
fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu prprio
sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples, sem
nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes caractersticas.
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem. No foi grande
poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano. Para
Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante da felicidade ou
infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente  prpria condio
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso.
27
Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo
humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo. Como
critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode aberrar das
condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico das abstraes.
0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo grego: uma iniciativa
de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o soneto,
dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a alternncia do
octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a Artur de Oliveira.
Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o ritmo dos
agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel lio de poesia
quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de Pombal, publicou,
sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h
dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a primeira
fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia, a
quem devemos pelo o que seria diferente da j representa uma evoluo. Vai
eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia romntica
nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875), Helena (1876) e
Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos personagens e do entrecho;
revela-se a personalidade do autor na preocupao mais acentuada do estudo dos
caracteres. Mas as situaes que arma, para os revelar, e a prpria compreenso
que deles tem, tudo trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise
psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao, a
lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso 
significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com a
inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei em
1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos
e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio
por onze amigos". Galhofando dos ascendentes, fala da prpria genealogia.
Assevera que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacutico, um emplastro medicamentoso.
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Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos dias
de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado num
hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto de uma
montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais, tiveram grande
influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas: tio Joo, homem de
lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso e severo; Dona
Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs passou uma infncia de
menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a gastar
demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela gostava de
jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amou-me, diz Brs
Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o pai tomou
conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o curso jurdico e
bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava
moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na
Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo deputado.
Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura aumentar o circulo
de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o caminho para o futuro
deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao Conselheiro Dutra que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual se
apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam prestes a
realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto aconteceu um
imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a namorada, mas
tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre. Virglia casa-se
com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o marido. Mas, na
verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e ama realmente a Brs
Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com freqncia e, em breve,
tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e nela confiava inteiramente.
Alis no tinha muito tempo para observar o que se passava, j que estava
entregue totalmente  poltica.
Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de escola
primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do
encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara o relgio. Os
encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e mexericos dos
vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a Virglia a fuga para
29
um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a ama e na famlia, e
sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idia parece boa a Brs, que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em
alguma rua escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem
suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi
designado como presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se
com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao
amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina, procura fazer ver
ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstio do
que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no aceitando mais o cargo de
presidente, porque o decreto de nomeao sara publicado no Dirio oficial num dia
13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe
uma carta annima denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com
que os dois amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens: Lobo
neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o interior do pas
levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs, volta a
insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se Nh-lol.
Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente, mas Nh-lol
vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se tambm
com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia atrado
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os amores de
Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relgio,
passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana de
um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria filosficoreligiosa,
o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs Cubas passa a
interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo
Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como o havia trado com
sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido
completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba,
por causa de urna molstia que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brs Cubas".
30
E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me com um
pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: no tive
filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa acompanha
os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou. A
vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao cnica
ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada. Pessimismo
(influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na Literatura
Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre dois mundos,
foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo s idealizaes
romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo v e tudo julga,
Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que
restou foram as memrias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte. Criou
uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal, eterno,
comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse principio
indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se encontram,
frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro para sustentar
uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo que vence, ganha as
batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice condimentam as lies de
Quincas Borba.
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto. Um
filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade, viva de
parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro. Rubio foi o
melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
31
Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de Brs
Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo. Herdeiro de
tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona,
escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias, dinheiro, livros, a
filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula nica do testamento era
tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado pelo
tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de mostr-la a
todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia aprendeu logo e bem a
arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os seus
desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0 dinheiro
acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando. Rubio passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que  Napoleo III .
Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai para Barbacena.
L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas Borba, tambm morto,
numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos, rite.
 a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais, concluda
com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies polticas acabam
levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde mestre-escola, ingnuo e
puro, envolve-se em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta-o 
loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico, explorado
pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda metade
do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo natural que,
na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
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(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram de
Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j est
com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de Bentinho,
viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa, se fosse
bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso (padre ou freira, conforme o
sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a promessa: Bentinho iria para o
seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se transforma
em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se tornando um grave
problema para os dois, que buscam todas as maneiras de evit-lo. Justina, prima
de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem Bentinho suplica que interceda
com a me em seu favor, se nega. Jos Dias, velho empregado da casa, muito
estimado, diz que o problema no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o
caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem
sequer consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas
de evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar
apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu amigo
e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as visitas
semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma idia: Dona
Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto , custeando as
despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do seminrio. A idia
vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado em Direito, casa-se com
Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna
maior quando Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha,
amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha, 
qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode chamar
tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem promessas e
rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos pais. Chama-se
Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e Capitu. Certo dia,
Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha retira-se
para o Paran, onde possua parentes.
E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os mesmos
olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta Bentinho, e
uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam passado despercebidas
comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode
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com Capitu, que no consegue encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas
desculpas confirmam definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o
filho de Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente, tambm
morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o meu
melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS DUAS
PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador coloca-se num
ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem contamin-los,
episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas apenas da carga
emocional correspondente ao impacto do momento da ocorrncia.
Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do passado o ngulo do
prprio momento da evocao, marcado pelo desmoronamento da iluso de sua
felicidade. Dessa forma temos uma dupla viso da experincia, reconstituda em
termos de exposio e de anlise. A viso esfumaada do adultrio  um dos
requintes do Bruxo do Cosme Velho (Machado). Parece inspirado no drama de
Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte criao
de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai tecendo o seu
destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles.  medida
que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos diversos:
so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro  dissimulado e
conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. J adultos, a causa
principal de suas divergncias passa a ser de ordem poltica  Paulo  republicano
e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca da Proclamao da Repblica,
quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem ambos
gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos dois: 
retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias levou o
conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro  mais um
grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como memorialista no
prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata aposentado, de hbitos
discretos e gosto requintado, amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta
o pensamento do prprio romancista.
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As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de Flora,
tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua. Continuam a se
desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se elegeram deputados,
e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento de amizade eterna, este
feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade e
contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados paralelamente, ao
longo das memrias do conselheiro Aires, personagem surgido em Esa e Jac: o
do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo. Trata-se de um livro concebido
em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de melancolia. Nele Machado de Assis
ps muito dos ltimos anos de sua vida com Carolina, falecida quatro anos antes
da publicao. No h muito que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de
um casal de velhos. 0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice,
pretendeu com este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em
tom de mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos seus primeiros
romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do amor. Distingue-o,
porm, e torna-a muito superior queles a mestria do ofcio, o domnio do
instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o ntimo
atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a dar alguma
idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro, com outras
intenes e de outra tessitura.
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